Ser bonzinho tem um custo alto, e que frustra.
A frustração é uma dor do estilo da dor do coração partido, porém, por sua vez, do coração que foi partido por um sonho não realizado, por uma escolha boba e que ocasionou arrependimento, por uma coisa idiota que o fez perder oportunidades, pelo simples fato de ser deixado pra trás, quando você soube do seu incrível potencial.
Eu passei a minha juventude toda sendo boa, acessível, compreensível, tolerante. Eu era uma pessoa fácil de lidar. Era incrível como chegar num consenso se tornava confortável. Eu expunha meu ponto de vista, ouvia o outro, e chegávamos, facilmente, em um ganha-ganha brilhante, onde todo mundo ganhava. Ou quase todo mundo.
Quando eu tinha 11, 12 anos, eu jogava bola. Eu era considerada a melhor goleira da escola. Nos campeonatos da escola, o meu time sempre ganhava. Já nos interescolares, eu era a reserva. A goleira titular não era tão boa quanto eu, mas eu era mais acessível, por mim tudo bem ser a reserva, desde que eu fosse a melhor. Só que ninguém se lembra dos reservas, mesmo que joguem mais.
Quando eu comecei a cantar, eu era a vocal feminino em uma banda de animação. Eu era a melhor, sabia fazer todos os tipos de becking vocal, tonalizes, timbres diferenciados, graves, agudos, vocalizações, eu tinha a melhor presença de palco, e como eu era acessível, cantava menos musicas em primeira voz, aparecia menos, etc... Quando fomos gravar nossa primeira musica, o cantor principal esnobou a musica e não queria gravar, e eu ai, há horas disposta para fazer três ou quatro uuu ou aaa durante a musica. Claro que todo mundo da mais atenção para a pessoa mais difícil, a mais chata, a mais nada.
Agora eu jogo em um time de futsal feminino, todas as meninas já crescidas. Eu sou a única que fica no banco o tempo todo. Não confiam em mim? Não sei, só saberei daqui a uns anos, quando parar pra pensar nisso. Eu sou acessível, não reclamo por estar no banco. E daí se a outra gosta de jogar o tempo todo na linha? Eu sou acessível, estou aí pra quando ela não conseguir mais caminhar, for atropelada, ou tiver alguma doença. Quem sabe arrumem outra pra ir ao lugar dela, e eu continue no banco de reservas.
Ser boa. Ser a melhor. Ser acessível. Ser incrível. Ser fácil. Ser uma merda da na mesma.
As pessoas ainda não aprenderam a valorizar quem não causa problemas, quem vai ensaiar ou treinar todos os dias marcados, não falta por nada, a que não vai deixá-las na mão.
Elas só enxergam o problema. Elas dão valor para o problema, enquanto eu, a amiga, a companheira, a que se da por completo para ser a melhor e conquistar seu titulo, fica aí, escondida atrás de um microfone, ou sentada em um banco, torcendo.

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