Eu amo meu carro, minha coleção de discos, e a minha casa
nova. Estudei muito, e já tarde conheci uma mulher maravilhosa. Tive filhos,
mas mal posso vê-los, pois trabalho muito para sustentá-los. Guardo dinheiro
para fazer futuros investimentos, mas não tenho nada em vista. Mal vejo meus
pais e parentes. Mas minha vida é boa!
Morri pela primeira vez. Senti-me extremamente arrependido,
me senti até um pouco abandonado pelas minhas coisas. Deixei para traz as coisas
que achava mais importante, meu carro, minha coleção de discos, a casa que eu
havia a pouco terminado de quitar o financiamento. Meu emprego, que depois de
estudar muitos anos, precisei ainda, com muito suor, trabalhar incansavelmente
noites e noites para crescer. Minhas economias ficaram lá no banco, intocáveis
por muito tempo, e agora, estou aqui, sem elas.
Voltei à vida. Comprei um carro maior, onde coubesse minha família
e meu cachorro novo. Vendi minha coleção de discos e comprei CDs, no qual eu pudesse
ouvir em qualquer lugar. Financiei uma casa na praia. Com o mesmo emprego, subi
para um cargo onde eu ganhasse um salário maior, porém trabalhava mais também.
Nas férias, gastava minhas economias indo à praia com a minha família.
Morri pela segunda vez. Me arrependi de ter comprado o carro
maior e financiado uma casa na praia. Deixei muitas dividas para a minha esposa
e meus filhos ainda adolescentes. Já, meus CDs não tinham muito valor emocional
quanto tinham os discos. Meus filhos não tinham faculdade paga, pois havia
gasto todas as economias curtindo as férias, e mesmo assim, mal os via durante
o ano.
Voltei à vida. Paguei o carro e resolvi que não precisava de
um novo. Vendi a casa da praia, e começamos a viajar muito menos, portanto, íamos
a campings, fazíamos piqueniques e íamos a rios todos os fins de semana. Segui
no mesmo emprego, no entanto, trabalhando bem menos. Jantava em casa, assistia
a filmes com minha esposa e até aos jogos de futebol na TV com os amigos. Sobrava
dinheiro, então arrumei uma amante. Inventei viagens de negocio para minha
esposa, e gastei muito dinheiro com a amante. Não ia mais aos campings, não fazia
mais piqueniques, não fui mais nos rios.
Morri pela terceira vez. Minha esposa triste, pois eu não transava
mais com ela. Sabia de tudo e não me disse nada. Ela me amava e não teve
coragem de pedir o divorcio. Aturou-me assim por alguns anos. Sinto-me
envergonhado. Meus filhos, já adultos pegaram os acontecimentos no ar. Eles já não
me amavam como antes, não me admiravam como antes. Fizeram suas famílias e se
distanciaram de mim antes de morrer. Sinto-me sozinho. Solitário. Um morto
solitário.
Voltei à vida. Minha esposa passou a amar-se mais do que
amar a mim. Pediu o divorcio, e eu, entendendo meu erro, aceitei e assinei os
papeis. Estou eu, meu carro e meus CDs, pois a casa e o cachorro ficaram com ela.
Já não tenho economias e me sinto velho. Meu emprego eu perdi, pois rapazes
mais novos e mais dispostos do que eu podem exercer minha função com mais
energia. Já não ganho lá aquelas coisas, pois tive que me aposentar. Quem daria
um emprego a um velho como eu? Meus filhos me ligam às vezes para saberem se eu
ainda estou vivo. Moro em uma pensãozinha barata. Meu carro é grande, porem velho.
Ele da muito problema, então eu o vendi. Com o dinheiro, fiz uma cirurgia de apêndice,
que já não me deixava mais dormir. Meu colesterol estourou, minha diabetes
apareceu. Meu corpo já não agüenta mais.
Morri pela ultima vez. Trabalhei demais. Meu corpo já não era
mais como antigamente, quando eu estudava e achava que eu podia tudo. Gastei demais.
Mesmo meus filhos não me amando como antes, me arrependo de não ter preparado o
futuro deles. Amei-me demais. Perdi minha mulher e minha família brincando de
ser super-homem quando eu era apenas um pai de família irresponsável. Deixei de
sorrir e de ajudar por egoísmo. Morri como um velho sem alma, e me arrependo. Muito.